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Deborah Kerr e Burt Lancaster

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.10.07

O par mais poético… Não me estou só a referir ao filme From Here to Eternity e ao beijo na praia, mas também a um outro filme, obscuro e esquecido, dos finais de 60, The Gypsy Moths. Há uma sequência poética, um passeio nocturno pelos jardins perto de casa, lado a lado, primeiro em silêncio, depois a verdade, as feridas, o desencanto, são ditos assim, naquele parque infantil, à noite, por aquela mulher que de certo modo desistira de ser feliz. O homem ouve-a calmamente (há alguma coisa mais poética do que um homem ouvir uma mulher?). E desafia-a, mesmo que o seu olhar seja o mais triste olhar, porque quer acreditar que é sempre possível…

Talvez a magia dessa sequência inesquecível, única, também tenha a ver com a banda sonora… com a época… com a maturidade daquele par… Encontro em que o desejo existe de forma difusa, contida, mas que preenche tudo, os silêncios, os dramas, as palavras que se soltam na noite…

No entanto, o desejo de From Here to Eternity é o que mais prende as pessoas, porque é magnífico em si mesmo! Tão absoluto, tão sensual… e tão marítimo, pelo menos, a saber a maresia…

Deborah Kerr, eu diria, a maturidade. O olhar inteligente, sensato, sábio, até na pele da personagem mais inquietante, em The Night of the Iguana de John Huston. As personagens de Tennessee Williams…

Deborah Kerr pega na sombrinha e no caderno de desenho e desce o caminho entre as árvores… Para trás salva o herói perdido que pensa viver no “plano fantástico”… E a mulher solitária com quem o herói “preparou o ninho”, sem o saber… Pensamos que Deborah Kerr vive igualmente no “plano fantástico”, mas será? Não será ela a única que vive verdadeiramente no “plano realista”?

 

 

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publicado às 13:08

O eterno Verão em Spielberg

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.10.07

Revi O Tubarão, Encontros de 3º grau, E.T. e O Império do Sol, os meus preferidos de Spielberg.

Há uma determinada claridade nos filmes dos anos 70 que muitos jovens tentam repor e reencontrar, mas talvez a história não se repita com a mesma magia.

E há uma inocência que convive com o poder impessoal. A inocência, em Spielberg, é uma inocência selvagem e rebelde, pelo menos nestes filmes da primeira fase. O olhar irá ensombrar-se mais tarde… bastante mais tarde… Mas até lá foi Verão, mesmo quando as personagens sofrem na pele e na alma (O Império do Sol) a maior violência!

Até lá foi Verão… N’ O Tubarão há uma comunidade que vive do turismo estival, há a eterna estupidez humana no poder, há uma voz sensata no meio dos interesses mesquinhos mas sempre solitária… Há o estranho que aparece para ajudar e se torna amigo e cúmplice de aventuras… E há a constante tensão e ansiedade, lemos todos os sinais de perigo, antecipamos o pior! Perto do final, enfrentaram-se os medos, as limitações, e é a alegria da sobrevivência que os inspira a nadar para terra.

Nos Encontros de 3º grau há uma perspectiva ingenuamente optimista da comunicação possível com os extraterrestres. Acaba por ser uma descrição poética dos terrestres, estes estranhos terrestres que esperam sempre por uma nave. Que ficam obcecados com a ideia de contactar outras inteligências e sensibilidades. E há sequências fabulosas! O nosso herói a construir uma montanha dentro de casa, já sem a família, a cena do telefonema, e a televisão a mostrar precisamente imagens da mesma montanha que ele está a tentar reproduzir com tanto sofrimento e angústia! Só nós vemos a coincidência, antes mesmo do nosso pobre herói! Genial! Outra, a da condução pelas pradarias a rebentar as vedações, símbolo da propriedade dividida, como um autêntico “cow-boy” dos velhos tempos, o desafio perante a autoridade militar, sobretudo este confronto com a autoridade militar, porque é tão desigual e impessoal! Identificamo-nos imediatamente com o percurso do nosso herói, subimos com ele a montanha, esperamos que consiga escapar para o outro lado!

No E.T. o Verão também se anuncia através das crianças, os protagonistas! É a infância na sua curiosidade e criatividade. E na sua inteligência. São elas que comunicam mais facilmente com outras inteligências. São elas que percebem intuitivamente o essencial. O próprio E.T. ficará fascinado com o mundo dos terrestres, sequência fascinante da comunicação à distância, por simpatia ou empatia, com a criança na aula de zoologia! Libertam-se as rãs e libertam-se as crianças, de um laboratório, de obstáculos, de limites. Por breves momentos, tudo é poesia! Há aqui igualmente o confronto com a autoridade militar e impessoal. E o lado sinistro de laboratórios muito brancos, assustadores. Magnífica sequência de uma luz que se ilumina no corpo branco do E.T. e de uma planta que renasce. E da fuga para casa, home, home… É a palavra mais acolhedora que conheço para o espaço onde se pertence. (Já em Rio sem Regresso, o filme de Preminger que dá o título a este blogue, é esta palavra que finaliza tudo: Home…)

Em Spielberg as personagens são credíveis, quase podiam surgir em documentário. O cenário também. Assim como as situações. E mesmo que os extraterrestres não o sejam, não são os terrestres os seres mais poéticos e sonhadores? Nessa perspectiva, tudo é possível! Os extraterrestres são à nossa imagem, à semelhança dos nossos sonhos!

Spielberg formou-se inequivocamente a ver filmes dos grandes mestres. Mas há uma arte Spielberg, uma claridade Spielberg, um ambiente Spielberg! E nestes filmes da primeira fase há um Verão que nos parece eterno, também ele, muito anos 70!

 

 

 

 

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publicado às 16:36

O melhor filão está dentro de nós

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.10.07

 

De novo a mulher, o homem e o rapazinho, mas desta vez não um rapazinho-criança, como no Rio sem Regresso. Um rapaz a caminho da sua autonomia, com uma voz própria, aliás, mais madura por vezes que a voz dos homens, que alia coragem e determinação a ternura e cuidado.


De novo esta estranha composição, seres vulneráveis e sós, que se apoiam e se ligam por laços tão fortes como o seu desamparo. Na natureza áspera e selvagem das montanhas, onde homens igualmente ásperos e selvagens procuram o eterno filão.


A cegueira da mulher e a visão que vai adquirindo, com o apoio do homem e do rapaz, em quem aprende a confiar, tem um sentido mais profundo. Medo da claridade, da verdade, da perda, da dor? O homem ajuda-a a libertar-se desse medo de ver, de viver, mas foge do seu próprio medo de amar, de confiar. E de ser assim amado, de forma tão inteira. O rapaz entende tudo isso e di-lo, sem rodeios. Será ele o protector da mulher, a sua companhia, o seu afecto. O homem apoia-os de longe, em segredo.


Até tudo se precipitar e ultrapassar as nossas personagens. Circunstâncias próprias da natureza humana, a sua terrível ambição e mesquinhez, a descoberta de um filão. E o seu terrível sentido de posse, de território. A sua boçalidade.


O amor do homem, que tinha surgido da forma mais suave e quase maternal, ao ajudá-la a abrir os olhos e a ver, também o cegará de ódio e despertará nele a luta mais primitiva quando a vê em perigo.


E é quando tudo parece perdido, o homem rodeado pelos justiceiros e sedentos de espectáculo, na hanging tree, que é salvo pelo amor que receia, de que foge. A mulher e o rapaz vêm resgatá-lo, o filão pelo amor. Como pode ele continuar a fugir? Elizabeth. Inclina-se sobre ela, a imagem poética e sensual.


Estranha natureza humana: quando o pior de nós surge, o melhor de nós surge também, o melhor filão, o genuíno, o que perdura, o que está vivo.

 

 

 

 

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publicado às 10:21


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